(Oitavo capítulo do livro (ver imagem de capa) Sintropia e Entropia na Maçonaria: Ordo Ab Chao) de minha autoria.
“Conhecer a própria escuridão é o melhor método para lidar com as trevas dos outros.” - Carl Jung
A busca pela Luz, tema axial na simbologia maçônica, é frequentemente interpretada como um anseio por pureza, elevação ou iluminação espiritual. Contudo, o caminho iniciático nos convida a ir além dessa interpretação superficial. A Luz que a Maçonaria propõe não se opõe à escuridão como inimiga, nem pretende apagar a sombra como se fosse um erro a ser corrigido. Ela é, antes, um movimento de consciência: o esforço constante e corajoso de reconhecer, integrar e transcender as partes de nós que resistimos em ver. Nesse sentido, a jornada do iniciado não é uma fuga da sombra, mas um retorno a ela - com lucidez, presença e humildade.
Na tradição esotérica e simbólica, Luz e trevas não são opostos excludentes, mas polaridades complementares de um mesmo processo de autoconhecimento. Não há consciência plena sem o reconhecimento daquilo que nela está ausente. O verdadeiro inimigo do iniciado não é a sombra em si, mas a ignorância sobre ela, a recusa em aceitá-la como parte do próprio ser. A sombra não é o avesso do bem; é o avesso daquilo que ousamos admitir. Por isso, o verdadeiro mestre não é aquele que não tem contradições, mas aquele que as acolhe, sem se render a elas. Um homem sábio não é aquele que eliminou seus vícios, mas o que os conhece tão bem a ponto de não ser dominado por eles.
A Maçonaria, como escola filosófica e iniciática, propõe ao ser humano um processo de individuação que remonta à própria estrutura arquetípica da alma. O iniciado é constantemente confrontado com símbolos que o convidam a olhar para dentro - e não para fora. Os dois pilares do templo, o pavimento mosaico, o esquadro e o compasso, os graus e os rituais de passagem não são peças de um teatro, mas metáforas vivas do drama psíquico que cada um carrega. Todos esses elementos falam da ambiguidade constitutiva da natureza humana: da tensão entre o ideal e o instintivo, entre o fraterno e o competitivo, entre o sábio interno e o sabotador inconsciente.
No interior de cada ser humano há um universo de ambivalências: desejamos ser justos, mas também buscamos nos sobressair; defendemos a humildade, mas alimentamos vaidades secretas; aspiramos ao amor desinteressado, mas lutamos contra ciúmes e medos antigos. Essas contradições não são falhas morais, mas expressões do próprio processo de amadurecimento psicológico. A psique humana, como bem descreveu Jung, não evolui por negação, mas por integração. Reprimir a sombra não a dissolve - apenas a desloca para os porões do inconsciente, de onde atua com força redobrada.
Na linguagem junguiana, a sombra representa tudo aquilo que excluímos da nossa identidade consciente: traços, emoções, impulsos e memórias que consideramos incompatíveis com a imagem que construímos de nós mesmos. Ao serem reprimidos, esses conteúdos formam um corpo oculto que, mais cedo ou mais tarde, emerge por meio de projeções, rupturas emocionais, comportamentos automáticos ou crises existenciais. A sombra não integrada nos sabota; a sombra reconhecida nos ensina. Ao confrontá-la, descobrimos que ela não é apenas destrutiva: ela também guarda potência, verdade, energia criativa. É da mesma raiz que nasce o veneno e o remédio.
A Maçonaria trabalha essa integração por meio de uma pedagogia simbólica sofisticada. O pavimento mosaico, por exemplo, lembra que a realidade é feita de contrastes: luz e sombra, bem e mal, sucesso e fracasso. Os rituais de morte simbólica, presentes em diversos graus, não representam apenas o abandono de uma identidade profana, mas a aceitação de uma nova existência mais lúcida - onde o ego é relativizado e a alma é chamada à autenticidade. A iniciação, nesse contexto, é um convite à travessia: a morte do personagem que desejamos sustentar diante do mundo, para o nascimento de um ser mais íntegro, ainda que mais vulnerável.
A Luz que não conhece a sombra é superficial, frágil, moralizante. Serve para impressionar, mas não para transformar. É uma claridade que se apaga diante do primeiro tropeço. Já a Luz que atravessou a sombra é outra coisa: é sabedoria, porque aprendeu com os próprios abismos; é compaixão, porque reconhece no outro suas dores; é humildade, porque não precisa mais provar nada. Essa Luz não se vangloria, não julga, não exclui. Ela silencia, escuta e acolhe. Torna-se ética viva, e não moral de aparência.
No cotidiano maçônico, a sombra se infiltra nas pequenas atitudes: na vaidade disfarçada de liderança, na dificuldade de lidar com críticas, na competição velada entre irmãos, na rigidez que se esconde sob o manto da tradição. Essas expressões não indicam falha na iniciação, mas sim que o processo ainda está em curso. A Loja, enquanto espaço simbólico e relacional, é um campo de trabalho vivo onde essas sombras podem ser trazidas à consciência. Ela é um espelho e, ao mesmo tempo, um cadinho alquímico: onde o chumbo da personalidade pode, com esforço, tornar-se ouro de consciência.
Mas há também a sombra coletiva. Ela habita as instituições tanto quanto os indivíduos. Pode estar presente na exclusão sutil de irmãos mais velhos, na resistência a mudanças, no uso do rito como ferramenta de poder, na omissão diante de desigualdades. Quando a Maçonaria ignora essas sombras institucionais, corre o risco de trair seus próprios princípios. Inversamente, quando as reconhece e enfrenta com maturidade, reafirma sua vocação como escola de evolução ética. Não há Luz no templo se há trevas negadas entre seus alicerces. A iniciação verdadeira é, também, um chamado à honestidade institucional.
Viver a dualidade não é ceder ao relativismo nem abandonar os ideais. É, sim, sustentá-los com os dois pés no chão. É afirmar com serenidade: “sou um ser em construção, e carrego em mim tanto a semente da virtude quanto as raízes do erro”. Essa consciência não enfraquece a caminhada - ela a fortalece. Porque não parte de uma autoimagem idealizada, mas de uma disposição autêntica de crescer, tropeçar, aprender e seguir.
Ao fim do processo iniciático, não se espera do maçom uma santidade performática, mas uma lucidez profunda. Um homem capaz de se enxergar com verdade, que não precisa esconder suas sombras nem exibir sua Luz. Um homem que, ao erguer sua pedra bruta, não busca perfeição, mas inteireza. E que, ao lapidá-la, não tenta apagar suas marcas, mas fazer delas traços da beleza de sua jornada.
Essa é a Maçonaria interior: uma construção diária, silenciosa e sincera, erguida não com ilusões de pureza, mas com o compromisso real de integrar aquilo que somos - luzes, sombras, imperfeições e esperanças - em um caminho onde a verdade não é ideal, mas vivida.
Ir\ Paulo C. T. Ribeiro, M\I\
A\R\B\L\S\ Quintino Bocaiuva, 10
Or\ de São Paulo, G\L\E\S\P\

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