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A ESCADA DE JACÓ E PSICOLOGIA

A psicologia recebe contribuições inestimáveis da Maçonaria e vice-versa, ora por estudos que ambas realizam, ora pela interpretação de símbolos e mistérios da mente humana, ou simplesmente porque estão, a psicologia e a maçonaria, objetivando a construção do homem ideal e, por conseguinte, da sociedade exemplar. Uma excelente amostra desta mútua cooperação é a importância do significado dos símbolos contidos na “ideia” da Escada de Jacó. Mais importante ainda é o fato de que para compreendê-los devemos ser suficientemente curiosos para olharmos as nossas realidades por este filtro, os arquétipos da Escada de Jacó e da Árvore da Vida, ou seja, viver as experiências do cotidiano sob a luz desses poderosos componentes da psicologia humana.

A primeira correlação da psicologia com a Escada, por esta ser uma via de subidas e descidas, refere-se à tomada de consciência como forma de crescimento pessoal. É como escalar a Árvore da Vida em seus vários estágios que são também condicionantes para a etapa seguinte. Em hebraico, a palavra “escada” é construída da seguinte forma: guiado pela Árvore da Tradição, apoiando-se nela, o homem caminha em direção à sua realização.

 A meta inconsciente das pessoas é ter consciência do próprio lugar no universo a fim de exercer suas potencialidades físicas, intelectuais e psíquicas plenamente, para, com isso, dar sentido e significado à vida. A Escada de Jacó, tal qual a Árvore da Vida, representa uma via de contato entre a matéria e o divino, que nos ajuda a compreender melhor tudo o que somos capazes de executar e os principais aspectos de Deus, Ele aqui mencionado como referência à Perfeição. No sonho de Jacó (Gênesis, cap 28), a Escada apoia-se na terra e seu topo toca o céu, mostrando que a evolução do homem, a sua própria vida, inscreve-se entre a Terra e o Céu. A experiência de Jacó confirma a imagem dos dois polos de um imã cósmico entre os quais o homem é a própria vibração. Se ele larga um de seus polos, ele não o é mais; ele apenas existe, no sentido etimológico do termo, mas está fora da corrente da vida.

Sem dúvida alguma, o homem é arquetípico. Num universo onde física e metafísica são dois aspectos de uma mesma realidade, e onde a vida é regida por leis, todo ser vivo é necessariamente a encarnação dos arquétipos que constituem a base da manifestação. Toda vida é arquetípica, a começar pelo homem, que é ao mesmo tempo micro e macrocosmo, unindo o Céu e a Terra. O simbolismo exprime, também, a existência, no próprio homem, dos três reinos, além de ter sido “criado à imagem de Deus”. Os anjos que sobem e descem podem ser entendidos como “energias mobilizadas em nosso eixo”, elas próprias descendentes e ascendentes e que fazem a força dinamizadora do encontro do homem com o mundo exterior na primeira parte de sua vida. Segue-se a isso, o encontro do homem consigo mesmo quando passa pela Porta dos Homens, depois do encontro da pessoa com seu núcleo. Essa visão ratifica a ideia de que a Escada de Jacó é o arquétipo do desenvolvimento do homem, o qual deseja tocar a Estrela da Perfeição.

No mundo profano, estamos adormecidos como estava Jacó, que ainda não possuía uma consciência capaz de lhe indicar os rumos de seu próprio destino. Quando profanos, vivemos sem ter consciência de nós mesmos, nossos registros estão apagados da mente física. Em seu sonho, Jacó vê uma enorme Escada unindo a Terra ao Céu, pela qual sobem e descem Anjos, e exclama: “O Senhor está neste Lugar e eu não sabia”. O desbastar da pedra tem a ver com este despertar: precisamos trabalhar para alcançarmos a absoluta união com o “Deus-Perfeição” e cumprir a passagem de evolução. Como mencionei, os Anjos nada mais são que a representação da emanação energética evolutiva manifestada nos mundos superiores. É pura energia que se manifesta de estado em estado, do mais sutil ao mais denso, até materializar-se. A Maçonaria nos mobiliza e oferece-nos esse banquete para ser degustado lenta, gradativa, mas conscientemente. Quiçá “absorvamos” nossos irmãos em nós mesmos, como assim fez Jacó com Esaú.

A Escada de Jacó simboliza o eixo “ego-pessoa em si mesmo”. Os anjos são o apoio à experiência como se fossem os processos alquímicos de sublimação e coagulação. Sublimação significa o processo de elevação de experiências concretas e pessoais a um nível superior ou nível de verdade abstrata ou universal, e a coagulação, em contraste, é a concretização ou realização pessoal de uma imagem arquetípica. Os Anjos subindo e descendo significam, portanto, que o “ego-mundo pessoal” e a “psique arquetípica” são vistos numa relação de interpenetração. William Blake exprime esse estado com os seguintes versos, em “Augurius of Innocence”: “Ver o mundo num grão de areia, e o céu numa flor silvestre, ter o infinito na palma da mão e a eternidade numa única hora.”

O significado da pedra no sonho de Jacó também nos interessa. Ele a usou como travesseiro; depois do sonho, quando percebeu que o local não era senão a casa de Deus e que aquela era a Porta dos Céus, usou a pedra para marcar o local onde se unem o “inferior” e o “superior”. Seria essa a pedra filosofal? Galgar a Escada de Jacó e ter o nome inscrito nos céus significa, também, que a identidade individual tem uma origem e uma justificação de ser transpessoal. Uma experiência dessas constitui uma solução definitiva para crises de identidade e é igualmente a resposta a condições menores de alienação, falta de valor e inferioridade. Se pedra filosofal for, sob a cabeça de Jacó e dos maçons constitui um poder de revelação. Ela abre todo o curso da natureza, revela os vínculos existentes entre as dimensões pessoais e transpessoais da psique (Terra e Céu) e torna evidente que nosso “ego pessoal” tem um fundamento metafísico.

Para viver a Escada de Jacó e compartilhar de suas graças é preciso, antes, esvaziar-se, desapegar-se. Mais livres e leves nos preparamos para subí-la. O segredo da ascensão é não se apegar na experiência de nenhum degrau para atingir o supremo encontro com a própria consciência. É desatrelar-se das amarras do passado, nele apenas apoiando um pé, desfazendo-se de ilusões para ficarem as esperanças, projetando-as com o outro pé para frente e para cima, superando obstáculos e os vícios das virtudes, na caminhada para o conhecimento, desenvolvimento e cura. Maçonicamente, a Escada representa a passagem para a perfeição e sua presença, por exemplo, no painel do aprendiz indica que o maçom, após sua iniciação, coloca o pé no primeiro degrau desta escada, dando o primeiro passo em busca do aperfeiçoamento moral. A Arte Real é, portanto, uma ferramenta poderosa para nos ajudar a empreender este caminho de evolução em direção ao verdadeiro “despertar”. Sua finalidade é esclarecer aqueles que buscam a Luz, mas requer, por parte do maçom, muita dedicação e um trabalho voluntário e solitário. Esse trabalho, resumidamente, está apoiado em quatro pilares que são o Querer, o Conceber, o Formar e o Executar. Precisamos querer cumprir o processo individual do “vir a ser”, cumprir nosso destino voluntariamente e regressar ao ponto de partida, representado pela união com Deus. É isso que faz aqueles que querem alcançar o elevado estado de consciência. Os quatro pilares se tornam, para isso, indispensáveis para a sustentação de nosso trabalho:

Querer: Significa, antes de mais nada, exercitar a vontade, forte, inabalável, resoluta e que não desiste diante de nenhum obstáculo.

Conceber: Significa compreender, realizar mentalmente, tomar consciência, e também preparar um plano de evolução com base em nosso conhecimento, experiências, histórico e alcance de visão.

Formar e Executar: Realizar o plano para cumprir completamente o seu projeto individual de crescimento; significa também aceitar nosso destino depois de tomar consciência. Isso requer um aprendizado longo e penoso, muitas vezes conseguido pela pessoa somente após uma iniciação em escolas filosóficas. A humildade para buscar e aceitar a ajuda de um mestre é indispensável, apesar do caminho ser absolutamente solitário.

Finalizando, quero comentar que a concentração e a firmeza de propósito sempre será a mola mestre de toda caminhada. Entre uma etapa e outra de nossa evolução ao nível superior da consciência individual, no caminho de ligação, existe uma energia em movimento que também nos empurra para baixo, no sentido inverso da realização individual. A falta de concentração fará com que essa energia nos “engane”. Fica então a pergunta: Compreendemos realmente o movimento da vida por este arquétipo proposto e a ele nos integramos de corpo e alma? Ou empacamos à sua frente recusando a integração?


Ir\ Paulo C. T. Ribeiro, M\I\
A\R\B\L\S\ Quintino Bocaiuva, 10
Or\ de São Paulo, G\L\E\S\P\
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