Para Jung, o herói é uma imagem primordial que simboliza o
esforço humano em confrontar as forças do inconsciente, vencer a Sombra e
abrir-se ao processo de individuação. Campbell, ao delinear o “monomito”,
mostrou que a jornada heroica é universal, estruturada em três grandes
momentos: Partida, Iniciação e Retorno. O herói, seja em mitos antigos, em
narrativas literárias ou nos rituais maçônicos, não apenas enfrenta provas
externas: ele se depara com dilemas internos que exigem coragem e integração. O
herói maçônico é, nesse sentido, um reflexo de cada iniciado, chamado a
transformar-se para depois retornar à comunidade com novos dons e sabedoria.
O gnosticismo, tradição mística dos primeiros séculos,
defendia que a salvação não vem da fé cega, mas do conhecimento interior
(gnosis). Acentuava a dualidade entre o mundo material e o espiritual, e via no
homem uma centelha divina aprisionada que precisa ser libertada. Jung
reconheceu nessa tradição uma inspiração para sua psicologia: assim como os
gnósticos, ele afirmava que a integração da Sombra e o despertar da consciência
ocorrem pelo enfrentamento honesto da verdade interior. A Maçonaria, ao propor
a construção do “templo interior” e o lapidar da pedra bruta, ressoa com essa
mesma lógica: a edificação simbólica não é externa, mas interna, exigindo
autoconhecimento e transcendência.
Na psicologia analítica, o processo de individuação é a
jornada pela qual o indivíduo se torna quem realmente é, integrando consciente
e inconsciente, luz e sombra, masculino e feminino. Os rituais maçônicos
funcionam como metáforas vivas desse processo: a descida às trevas do gabinete
de reflexão, a passagem por provações, a morte simbólica e o renascimento em
nova consciência refletem a mesma lógica da Jornada do Herói. Assim como o
herói atravessa o limiar para o desconhecido, o maçom atravessa a fronteira
entre o profano e o sagrado, aceitando o desafio de transformar-se
continuamente.
Os símbolos da Maçonaria — o esquadro, o compasso, a régua,
a pedra bruta e o templo — não são meros adornos. São arquétipos universais que
espelham processos internos. O esquadro evoca a justiça e a retidão; o
compasso, o equilíbrio e a contenção; a pedra bruta, a potencialidade ainda não
lapidada; o templo, a imagem do Self, centro e totalidade da psique. Esses
símbolos não apenas orientam o caminho ético e moral do maçom, mas também
servem como mapas para o inconsciente, revelando-se como chaves de acesso à
transformação interior.
A análise integrada de Jung, Campbell, o gnosticismo e a
Maçonaria revelam que todos apontam para uma mesma direção: a necessidade de
uma jornada interior que conduza à integração e à transcendência. A Maçonaria
oferece um arcabouço ritual e simbólico; Jung, uma psicologia da profundidade;
Campbell, a cartografia mítica do herói; e o gnosticismo, uma tradição
espiritual de libertação pela gnosis. Juntos, eles compõem um tecido de
significados que mostra que o caminho do herói não é apenas individual, mas
também coletivo: ao transformar-se, o iniciado transforma também a comunidade à
sua volta.
O herói maçônico, como arquétipo e como vivência, é um convite permanente a atravessar provações, confrontar a Sombra e lapidar a pedra bruta até que dela surja a forma da luz. A iniciação não é um ponto final, mas um processo contínuo de individuação e de busca pela verdade. Jung, Campbell e os gnósticos nos lembram que esse percurso é universal e atemporal, mas cada iniciado o percorre de forma singular. Na Maçonaria, a Jornada do Herói encontra não apenas um cenário simbólico, mas uma escola viva de autoconhecimento, liberdade e fraternidade.
Ir\ Paulo C. T. Ribeiro, M\I\
Or\ de São Paulo, G\L\E\S\P\

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