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INICIAÇÃO, O PORTAL PARA SI MESMO


(Segundo capítulo do livro A Pedra e a Psique: Psicoterapia e Maçonaria como Caminhos de Descoberta (ver imagem de capa), de minha autoria.


Nenhuma verdadeira jornada de transformação começa do lado de fora. Mesmo quando tudo parece externo - o ritual, a cerimônia, a sessão de terapia - o que realmente se inicia é um movimento interno. É o próprio ser que começa a se mover em direção a si. A isso, chamamos, nas tradições espirituais e na psicologia profunda, de iniciação. E toda iniciação, seja formal ou silenciosa, tem um elemento em comum: ela marca o instante em que alguém decide nascer de novo.

Na Maçonaria, o termo “iniciar” carrega uma força simbólica ancestral. Não se trata apenas de ingressar em uma irmandade ou passar por uma cerimônia solene. A iniciação é um ritual de passagem, uma espécie de parto simbólico em que o neófito - ainda inconsciente de sua nova condição - atravessa um limiar entre o conhecido e o misterioso. Ao ser despojado dos metais, vendado e conduzido em silêncio, o candidato é convidado a morrer simbolicamente para o mundo profano. Essa morte não é literal, claro, mas representa o abandono de padrões antigos de percepção, julgamento e comportamento. É a morte da ignorância orgulhosa, do ego desgovernado, da personalidade endurecida por certezas frágeis. E é também o nascimento de uma nova postura: a de aprendiz da própria existência.

Esse processo, profundamente ritualizado, ecoa dentro do ser humano em níveis inconscientes. Por isso, muitos irmãos relatam, mesmo anos após sua iniciação, que aquele momento permanece como um marco transformador, mesmo sem entenderem completamente o porquê. O simbolismo da Câmara das Reflexões, da caveira, da escuridão e do silêncio é uma encenação de morte e renascimento - uma metáfora viva da jornada interior que todos estamos, em algum grau, destinados a fazer.

Curiosamente, esse mesmo movimento ocorre na psicologia, embora por caminhos menos cerimoniais. O início de uma psicoterapia também é uma iniciação, ainda que silenciosa. O paciente não é recebido por irmãos nem por uma ritualística solene, mas sua travessia é tão profunda quanto. Quando alguém decide buscar ajuda psicológica, é porque algo em sua vida chegou a um ponto de exaustão, de colapso ou de confusão interna. Esse ponto-limite pode se manifestar como ansiedade, depressão, conflitos nos relacionamentos ou simplesmente, um vazio existencial. A dor funciona como chamado: “vá para dentro”.

O psicoterapeuta, assim como o Venerável Mestre da Loja, não impõe respostas. Ele conduz com escuta, presença e símbolos. Ao contrário da figura autoritária que dita caminhos, o terapeuta age como um companheiro de jornada que segura o lampião enquanto o outro desce ao seu porão. E essa descida, quase sempre, exige coragem para olhar as partes mais escondidas e desorganizadas de si.

Ambas as experiências - a maçônica e a psicoterapêutica - iniciam com um ato de humildade. O iniciado admite que não sabe tudo. O paciente reconhece que não está bem. Ambos aceitam olhar para dentro e escutar o que antes evitavam. Essa disposição, por si só, já representa uma ruptura com o orgulho defensivo que sustenta muitos dos nossos bloqueios mais profundos.

Na Maçonaria, essa humildade se expressa de forma plástica: a venda nos olhos, a escuridão, o silêncio da Câmara. A pessoa é convidada a se desfazer das aparências. Na psicoterapia, ela se expressa pela fala: dizer aquilo que doeu, que foi escondido, que nunca foi aceito. Em ambos os casos, a iniciação se torna o portal de um processo: ninguém sai igual de um mergulho honesto em si mesmo.

Mais do que isso: a iniciação marca um pacto. Na Maçonaria, é o compromisso com os valores da Ordem - fraternidade, verdade, liberdade, trabalho interior. Na psicoterapia, é o compromisso consigo mesmo - com a verdade de sua história, com a vontade de compreender e com o desejo de crescer. Ambas as vias exigem constância, entrega e disposição para atravessar desconfortos em nome de algo maior.

Talvez seja por isso que tantos psicólogos se interessam pela Maçonaria - e vice-versa. Porque ambas falam do mesmo território: a alma humana. E ambas compreendem que mudar exige mais do que informação: exige vivência. Na psicoterapia, o paciente aprende a nomear seus conflitos; na Maçonaria, o iniciado aprende a simbolizá-los. Em ambos os casos, o que era caótico começa a se organizar. O que era sombra se torna aprendizado. O que era dor vira sentido.

Importa, aqui, dizer que a iniciação não é um ponto final, mas o primeiro passo de uma longa estrada. É a entrada no Templo, não o fim do trabalho. O verdadeiro labor começa depois: na constância das sessões, nos graus que se sucedem, nas decisões cotidianas que refletem (ou não) a consciência despertada. Por isso, iniciar-se é muito mais do que atravessar um ritual: é atravessar a si mesmo, e fazê-lo de novo, sempre que for necessário.

O que torna esse processo tão potente é justamente sua natureza simbólica. Nenhuma mudança interna acontece apenas com palavras. É o símbolo que mobiliza a alma. Quando um paciente sonha com morte, com labirintos, com portas e espelhos, está dizendo, através da linguagem onírica, que algo em seu inconsciente está pronto para ser revisto. Quando um maçom entra em Loja e contempla as colunas, as Luzes, os instrumentos e os painéis, está tocando em imagens que também falam diretamente ao seu mundo interior. O símbolo dispensa explicações: ele age.

E é por isso que psicologia e Maçonaria podem dialogar tão bem. Ambas reconhecem que o ser humano não é apenas razão e comportamento - é símbolo, é mito, é processo. Ambas se recusam a aceitar o reducionismo de que somos apenas biologia ou cultura. O que somos está no meio: entre o que herdamos e o que podemos transformar.

Iniciar-se, no fundo, é aceitar esse chamado à transformação. É dizer “sim” a um convite silencioso que pede: vá mais fundo. Olhe para o que evita. Reconheça o que já não serve. Construa-se, não a partir de modelos prontos, mas do encontro com sua própria verdade.

Neste livro, seguiremos explorando como esses dois caminhos - a psicologia e a Maçonaria - podem se entrelaçar de forma respeitosa, profunda e complementar. Mas tudo começa aqui: com esse ato sagrado de dizer a si mesmo, pela primeira vez com honestidade, que chegou a hora de mudarPorque, no final das contas, toda iniciação verdadeira é um gesto de amor. Amor por aquilo que ainda podemos ser.

Ir\ Paulo C. T. Ribeiro, M\I\
A\R\B\L\S\ Quintino Bocaiuva, 10
Or\ de São Paulo, G\L\E\S\P\


Sobre o livro "A Pedra e a Psique: Psicoterapia e Maçonaria como Caminhos de Descoberta"

O mundo não muda porque gritamos mais alto, mas porque silenciamos com mais verdade. Reconstruir o ser para mudar o mundo, essa é a essência de "A Pedra e a Psique", um livro que nos lembra que a verdadeira transformação começa na reconstrução interior, na jornada de autodescoberta.

O autor, que é psicólogo e maçom, mergulha na conexão profunda entre a psicologia clínica e a Maçonaria, mostrando que o crescimento real acontece quando acolhemos nossas partes mais escondidas e como o rito maçônico e a psicologia dialogam dentro de você, transformando a sua "pedra bruta" na sua obra-prima - caminhos que se encontram para a lapidação do ser humano nos âmbitos individual e coletivo. O resultado é uma jornada que não busca perfeição, mas verdade e coerência. O autor nos ensina que a felicidade não está na ausência de dor, mas na capacidade de dar sentido à nossa própria história.

Sombra, rito e renascimento. "A Pedra e a Psique", uma ponte entre os saberes da psicologia profunda e os ensinamentos da Maçonaria. Um convite a entender que a iniciação é um portal para si mesmo, um processo de morte simbólica para padrões antigos para que um novo ser possa nascer.

Descubra como a sua jornada pessoal pode ser a chave para um mundo mais humano.

O livro está disponível nas plataformas abaixo:

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