(Segundo capítulo do livro - ver imagem de capa - Simbolos da Alma: Maçonaria, Mitologia e Psicologia na Construção do Humano) de minha autoria.
O símbolo nos revela como humanos. Agora, ao
adentrar a jornada iniciática, percebemos que esses símbolos não são apenas
estruturas conceituais: são forças que nos chamam, provocam e transformam. Se o
primeiro passo é reconhecer o poder do símbolo, o segundo é ouvir o chamado que
ele nos dirige — um convite à travessia interior.
Todo caminho iniciático começa com um chamado. Não se trata de uma voz audível, mas de um desconforto interior, de uma sensação de que falta algo, de que há mais para ser vivido e compreendido. Esse chamado simbólico marca o início de uma travessia: da inconsciência para a consciência, do mundo comum para o mundo interior.
Na tradição mitológica, esse chamado aparece como um convite à aventura — o herói é arrancado de sua zona de conforto e lançado em direção ao desconhecido. Na Maçonaria, esse mesmo movimento simbólico se traduz no pedido de iniciação: o profano bate às portas do Templo em busca de luz. Na psicologia, é o momento em que o sofrimento ou o vazio mobilizam a alma em direção ao autoconhecimento.
Essa etapa inicial é atravessada por tensões. O chamado pode ser negado, ignorado ou adiado. Mas ele persiste. Quem escuta esse apelo e aceita a travessia precisa abrir mão de certezas, enfrentar o medo e submeter-se a um processo de despojamento simbólico. Na iniciação maçônica, isso se encena por meio do desnudamento, da venda nos olhos e da viagem pelos quatro pontos cardeais. Cada detalhe representa uma entrega, uma suspensão do ego, uma escuta interior.
O iniciado, como o herói dos mitos, precisa morrer para renascer. Precisa atravessar a escuridão para encontrar a luz. Isso não acontece de forma literal, mas simbólica: é o ego que se rende ao Self, é a persona que se cala para que a alma fale. No processo analítico, é o momento em que o paciente abandona explicações prontas e entra no território do mistério — sonhos, símbolos, afetos negados. É nesse solo fértil que a transformação começa.
A Maçonaria oferece, por meio de seus rituais, uma pedagogia da alma. O gesto ritual, repetido com consciência, imprime marcas no inconsciente e permite que cada etapa da jornada seja vivida de forma mais profunda. O aprendiz não é apenas espectador de um teatro simbólico: ele é protagonista de sua própria travessia.
Responder ao chamado é aceitar tornar-se construtor de si. A pedra bruta, imagem central do grau de Aprendiz, representa aquilo que somos antes da elaboração interior. Trabalhá-la é assumir a tarefa simbólica de lapidar a própria alma, reconhecendo as arestas da sombra e despertando a centelha do divino que habita em nós.
O verdadeiro iniciado é aquele que, ao ouvir o chamado simbólico, se dispõe a atravessar o labirinto da própria psique com coragem, ética e humildade. Ele sabe que não há caminho pronto, mas há direção: e essa direção é para dentro. Pois é no interior do templo invisível que reside a luz que buscamos.
Ir\ Paulo C. T. Ribeiro, M\I\
A\R\B\L\S\ Quintino Bocaiuva, 10
Or\ de São Paulo, G\L\E\S\P\
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