(Sexto capítulo do livro (ver imagem de capa) Caminhos Filosóficos para a Luz: Filosofia Viva nos Fundamentos da Arte Real) de minha autoria.
A entrada no paradoxo
A Maçonaria, desde seus fundamentos simbólicos, se apresenta como uma escola de liberdade. Fala-se em libertar o homem da ignorância, da tirania dos instintos, do peso da inércia. O ideal maçônico evoca, com frequência, o brilho da consciência desperta e do homem autônomo, senhor de si.
Mas não se tarda a perceber um paradoxo essencial: para ser verdadeiramente livre, o iniciado precisa aprender a obedecer. Obedecer não a um outro externo e autoritário, mas a um princípio interno, a um código simbólico e ético que transcende os caprichos do ego. E essa obediência só é possível com disciplina.
Liberdade e disciplina - dois polos que parecem se opor, mas que na Maçonaria se abraçam.
A liberdade como conquista, não ponto de partida
Ao ingressar na Ordem, muitos acreditam estar recebendo a chancela da liberdade plena. Mas rapidamente descobrem que a liberdade ali proposta não é licença. É exigência. Não se trata de fazer o que se deseja, mas de desejar o que constrói. E para isso, é preciso renunciar a muita coisa: vaidades, impulsos, vícios, imediatismos.
A filosofia sempre ensinou que o homem não nasce livre - torna-se. E torna-se através do autodomínio. O estoicismo, o budismo e a tradição socrática convergem nesse ponto: ser livre é governar-se.
Na Maçonaria, essa ideia é ritualizada. Cada grau, cada avanço, exige esforço, silêncio, constância. O livre-pensador é, antes de tudo, um disciplinado da consciência.
A disciplina como forma de liberdade superior
A disciplina, no imaginário profano, está associada à rigidez e à punição. Mas, para o iniciado, ela é libertadora. Como o compasso que delimita e orienta, a disciplina traça os contornos dentro dos quais o espírito pode crescer com firmeza.
Assim como o artista precisa da técnica para expressar sua arte, o maçom precisa da disciplina iniciática para expressar sua liberdade verdadeira. Ritual, silêncio, pontualidade, respeito aos símbolos, escuta atenta - tudo isso não é formalismo, mas musculatura ética.
É a disciplina que impede que a liberdade escorregue para o caos. É ela que permite ao homem sustentar suas escolhas, resistir às tentações fáceis e caminhar com coerência.
O templo como metáfora do equilíbrio

O templo maçônico é um espaço onde tudo é ao mesmo tempo ordenado e simbólico. Nada está ali por acaso. Cada objeto tem seu lugar. Cada gesto tem seu sentido. Cada palavra tem seu momento.
O gesto ritual não se reduz a uma explicação didática. Ele é carregado de ambiguidade e de camadas. É palavra que se torna imagem, é silêncio que se torna revelação. Por isso, o rito não informa: ele forma. Nesse sentido, como propôs J. L. Austin ao tratar dos atos de fala, certas palavras - sobretudo em contextos rituais - não descrevem, mas realizam ações. No templo, falar é agir simbolicamente; é acionar significados vivos.
Esse ordenamento ritual é a expressão concreta do casamento entre liberdade e disciplina. Não se trata de sufocar a individualidade, mas de inseri-la em uma estrutura maior, onde cada pedra precisa respeitar as demais para que o edifício se sustente.
O maçom que entende o templo como um espelho de sua alma percebe que sua liberdade não é ferida pela disciplina - é refinada por ela. Como o ouro no cadinho, sua vontade é purificada pela ordem.
Ética e obediência voluntária
Na Maçonaria, obedece-se por escolha, não por medo. Essa é a beleza do processo: a autoridade simbólica da Loja não se impõe, ela convida. E o maçom que compreende isso aceita a obediência como forma de fidelidade a algo maior do que si mesmo.
Filosoficamente, essa é a passagem da heteronomia à autonomia. O homem que antes se guiava pelas leis externas passa a construir em si a Lei. E essa Lei, longe de engessá-lo, o liberta da fragmentação e da alienação.
Obedecer ao rito é, portanto, obedecer a si mesmo em sua versão mais elevada. É ajustar a bússola interior com os valores universais da fraternidade, da justiça e da verdade.
O paradoxo como motor iniciático
Aceitar que liberdade e disciplina não são opostos, mas complementares, é um dos grandes saltos filosóficos da jornada maçônica. É deixar de ver o mundo em dicotomias e começar a enxergá-lo em tensões criativas.
O iniciado não precisa escolher entre ser livre ou ser ético, entre ser autêntico ou ser simbólico. Ele precisa aprender a habitar a corda esticada entre esses polos - com firmeza e leveza.
Esse paradoxo não se resolve. Se vive. E, ao vivê-lo, o maçom torna-se, pouco a pouco, um homem mais inteiro. Mais capaz de discernir. Mais livre para escolher o bem. Mais fiel à sua vocação espiritual.
Ir.'. Paulo C. T. Ribeiro, M.'.I.'.
ARBLS Quintino Bocaiuva, 10
Or.'. de São Paulo, GLESP
Or.'. de São Paulo, GLESP

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