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O CINZEL DO TEMPO - ENFRENTANDO O ETARISMO NA ARTE REAL


Refletir sobre o etarismo na Maçonaria é reafirmar que o verdadeiro valor do Irmão não está apenas no que ele faz, mas no que ele é - e no que ajudou a construir.

 

A Maçonaria, enquanto Instituição iniciática, filosófica e filantrópica, sempre se constituiu como uma escola de formação humana fundada nos princípios da fraternidade, da igualdade e do respeito à dignidade do indivíduo. Tais valores não se destinam apenas à ritualística ou à simbologia, mas devem orientar, de maneira concreta, a vida das Lojas e a forma como cada Irmão é reconhecido em sua trajetória.

É sob essa perspectiva que se torna necessário refletir, com serenidade e responsabilidade institucional, sobre um fenômeno contemporâneo que atravessa silenciosamente muitas Oficinas: o etarismo, isto é, a discriminação baseada na idade. Em um tempo marcado pela aceleração, pela neofilia - a paixão quase compulsiva pelo novo - e pela supervalorização da produtividade, o envelhecimento passou a ser visto, em diversos contextos sociais, como perda de valor. A Maçonaria, como microcosmo da sociedade, não está totalmente imune a essa influência.

Reconhecer essa realidade não fragiliza a Ordem. Ao contrário, demonstra maturidade ética e compromisso com o aperfeiçoamento contínuo que sempre caracterizou a Arte Real.

Identidade, utilidade e o risco da redução funcional

Um dos riscos mais sutis do etarismo institucional é a redução do Irmão à sua função administrativa. Quando o valor do maçom passa a ser medido prioritariamente pela energia operacional, pela capacidade de executar tarefas ou pela rapidez de adaptação às novas dinâmicas, perde-se de vista algo essencial: o valor do Ser sobre o Fazer.

O Irmão mais experiente deixa, então, de ser reconhecido por sua sapiência, por sua memória viva da Loja, por sua capacidade de aconselhamento e equilíbrio, passando a ser visto apenas a partir daquilo que já não consegue mais sustentar fisicamente. Cria-se, assim, uma prisão simbólica da “força”: espera-se que ele continue performando como antes, mesmo quando o corpo naturalmente pede outro ritmo.

A Maçonaria, entretanto, nunca foi uma instituição do desempenho, mas do sentido. O verdadeiro amadurecimento maçônico consiste justamente na transição do “suportar cargos” para o “habitar a Loja” como presença ética, referência simbólica e coluna de sustentação moral.

O silêncio dos veteranos e a perda da sabedoria

O etarismo raramente se manifesta por meio de ofensas diretas. Ele se instala no silêncio. Surge quando Irmãos experientes deixam de ser ouvidos, quando não são mais convidados a exercer funções simbólicas, quando suas opiniões passam a ser consideradas “resistência” ou “apego ao passado”.

Essa dinâmica produz consequências graves. Institucionalmente, empobrece a transmissão do saber, fragiliza a ritualística e rompe a continuidade da tradição. Humanamente, pode gerar isolamento, sofrimento emocional e uma forma de morte simbólica institucional: o Irmão continua pertencendo formalmente à Loja, mas deixa de sentir-se parte viva dela.

A Maçonaria é, por essência, uma tradição iniciática sustentada pelo tempo. Sem os mais antigos, não há memória; sem memória, não há identidade; sem identidade, não há futuro.

Tradição, renovação e a simbologia do equilíbrio

A oposição entre tradição e renovação é falsa. A própria simbologia maçônica nos ensina isso. O Prumo mede a retidão das nossas atitudes tanto em relação ao jovem quanto ao idoso. O Nível nos lembra que todos são iguais em dignidade, independentemente da idade. E a Coluna da Sabedoria, tradicionalmente associada ao Mestre mais experiente, não sustenta o Templo por sua força física, mas por sua profundidade.

A Loja é uma escola do tempo. Enquanto o mundo profano corre, a Maçonaria convida à pausa, à escuta e à maturação. Juventude e experiência não competem; se complementam. Quando uma dessas dimensões é excluída, o edifício perde estabilidade.

Caminhos possíveis: inclusão, cuidado e ritmos humanos

Enfrentar o etarismo exige mais do que discursos; requer práticas coerentes com os valores da Ordem. Algumas direções se mostram especialmente relevantes:

  • Respeito aos ritmos que cabem: não exigir do Irmão idoso a mesma dinâmica de um jovem, mas valorizar sua presença como âncora ritualística e referência ética.
  • Mentoria intergeracional: permitir que a experiência seja transmitida de forma viva, fortalecendo vínculos entre gerações.
  • Critérios equilibrados para funções: considerar mérito, trajetória e sabedoria, e não apenas vigor operacional.
  • Tecnologia a serviço da aproximação: transmissões e recursos digitais devem aproximar Irmãos afastados por questões de saúde, jamais substituir o calor da fraternidade presencial.
  • Cuidado sem vigilância: visitas fraternas que ofereçam escuta e companhia, não cobrança de presença.

A Psicologia do Cuidado e o papel do Hospitaleiro

Nesse cenário, o papel da Hospitalaria expande-se para além da assistência matéria e de situações de doenças, alcançando a dimensão da Psicologia do Cuidado. O Hospitaleiro, como guardião do bem-estar dos Irmãos, deve atuar na prevenção do isolamento emocional, promovendo uma escuta ativa que valide a trajetória dos mais antigos.

Cuidar, aqui, não significa apenas atender na enfermidade, mas garantir que o Irmão sinta que sua presença continua sendo um tijolo vivo na estrutura da Loja. Trata-se de um exercício de alteridade que transforma a hospitalidade em um porto seguro contra a invisibilidade do envelhecimento.

Considerações finais e chamada à reflexão

A coerência entre discurso e prática é um imperativo ético da Maçonaria. Não é possível falar em fraternidade enquanto se tolera a exclusão silenciosa. Não é possível honrar a tradição desprezando aqueles que a construíram.

Como já se disse, “a tradição não é o culto das cinzas, mas a preservação do fogo”. E são, muitas vezes, os Irmãos mais antigos que mantêm esse fogo aceso para as novas gerações.

Fica, portanto, uma reflexão dirigida especialmente aos Veneráveis Mestres e às lideranças das Lojas: quantos Irmãos veteranos de nossa Oficina não recebem, há mais de um ano, um convite para exercer uma função simbólica ou de orientação?

Responder a essa pergunta com honestidade é um primeiro passo para que o cinzel do tempo não se transforme em instrumento de exclusão, mas em ferramenta de lapidação coletiva.

Nota de Rodapé: O autor é também autor do livro Maçonaria, Tradição e Etarismo - Reverenciando o Passado, Construindo o Futuro, no qual aprofunda as reflexões aqui apresentadas. O tema tem sido objeto de palestras e debates em Lojas e eventos maçônicos, incluindo apresentação na mais recente Jornada Maçônica. Contato: www.psipaulocesar.psc.br

Que G.'.A.'.D.'.U.'. nos inspire e nos guarde.

Ir.'. Paulo C. T. Ribeiro, M.'.I.'.
ARBLS Quintino Bocaiuva, 10
Or.'. de São Paulo, GLESP
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