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ESCADA, COMPASSO, MAPA DA CONSCIÊNCIA

 

(Nono capítulo do livro Simbolos da Alma: Maçonaria, Mitologia e Psicologia na  Construção do Humano (ver imagem de capa), de minha autoria.

A alma simbólica precisa de mapas. Assim como os antigos navegadores buscavam estrelas para não se perderem no mar, também o buscador interior precisa de referências para atravessar os labirintos de si. É por isso que os símbolos orientam: não porque expliquem, mas porque indicam. São setas, não manuais. São convites, não garantias.

Entre os muitos símbolos que atravessam as tradições iniciáticas, alguns se destacam por sua capacidade de mapear o processo psíquico: a escada, o compasso, a régua, o esquadro. Ferramentas simples, mas carregadas de sentido. Na Maçonaria, esses objetos não servem para construir edifícios externos, mas para erigir o templo interior.

A escada é um símbolo ancestral da ascensão da consciência. Presente nos sonhos bíblicos, nos mistérios egípcios e nas visões xamânicas, ela representa a ligação entre os mundos: o inferior, o intermediário e o superior. Subir a escada não é fugir da realidade, mas integrá-la: cada degrau é uma etapa de ampliação de visão e purificação da intenção.

Na linguagem psicológica, a escada pode representar o processo de individuação: cada degrau, uma integração de aspectos psíquicos antes rejeitados ou inconscientes. É um esforço constante de tornar-se inteiro. Mas esse esforço não é solitário. Na jornada simbólica, o buscador é amparado por imagens, mitos e rituais que lhe oferecem direção e sentido.

O compasso, por sua vez, aponta para a capacidade de traçar limites conscientes. Em vez de viver regido por impulsos ou normas externas, o iniciado aprende a circular sua própria vida com discernimento, ética e cuidado. O compasso desenha o espaço sagrado onde o Eu pode crescer sem se perder.

Na psicologia analítica, essa função do compasso se aproxima da ideia de centro. O Self, como eixo integrador, precisa de contorno. Sem limites, não há forma. Sem forma, não há expressão do espírito. O compasso desenha, portanto, o espaço interior onde o ser pode nascer com autonomia.

Mas nenhum mapa é útil sem disposição para a travessia. Muitos possuem os símbolos, mas não os deixam falar. O iniciado é aquele que caminha com atenção. Observa, escuta, reflete. Sabe que a régua não mede apenas centímetros, mas simboliza a necessidade de retidão. Que o esquadro não apenas alinha pedras, mas exige equilíbrio entre o agir e o pensar.

Esses instrumentos não ensinam técnicas. Ensinam atitudes. A simbologia maçônica, nesse sentido, é pedagógica e transformadora. Ao lidar com suas ferramentas, o aprendiz aprende sobre si. Ao meditar sobre a escada, revê seus passos. Ao abrir o compasso, mede suas intenções. Ao usar o esquadro, verifica a coerência entre suas palavras e ações.

A Maçonaria não dá respostas prontas. Dá mapas simbólicos. Dá bússolas. Dá imagens que precisam ser escutadas, e não apenas explicadas. Quando essa escuta acontece, o símbolo se torna um espelho: revela onde o iniciado está em sua jornada — e o que ainda precisa ser atravessado.

No final, não importa quantos degraus a escada tem. O que importa é se cada degrau foi trilhado com consciência. Não importa quão preciso é o compasso, se ele não for usado com amor. O templo não é construído com perfeição técnica, mas com sentido. E cada ferramenta, usada com alma, torna-se ponte entre o visível e o invisível.

Essa é a cartografia do iniciado: feita de escadas, compassos, silêncios e escolhas. E quem aprende a ler esse mapa torna-se mestre não dos outros, mas de si mesmo — e, por isso, servidor do mundo.

Ir.'. Paulo C. T. Ribeiro, M.'.I.'.

ARBLS Quintino Bocaiuva, 10
Or\ de São Paulo, G\L\E\S\P\

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