Tenho uma propensão a interpretar a maçonaria num contexto psicológico e isso é uma constante, mas deixo claro que a Maçonaria precede a psicologia e é improvável que os irmãos que criaram a nossa Ordem tiveram a intenção de considerá-la – a psicologia – nos símbolos, alegorias e mitos. Mas que há “algo mais”, isso sim, tenho certeza, afinal, não é difícil aceitar que eles representam a estrutura de nosso próprio ser interior, ou templo interior.
O que um psicólogo comum, não maçom, diria sobre as coisas que nós, obreiros, fazemos em nossas reuniões na Loja? Mais do que provável, ele consideraria nossas atividades uma expressão de impulsos, motivos e motivações ancestrais e universais que datam do início da história humana. Os psicólogos têm notado que, em cada única cultura os homens parecem ser motivados ou conduzidos por três instintos básicos ou impulsos:
- Um instinto de se reunir em grupos para desfrutar da companhia uns dos outros. Os homens, em particular, parecem ter um instinto de se reunir em grupos que excluem mulheres.
- Um instinto para organizar os grupos em uma hierarquia de status, ou cadeia de comando, de alto a baixo. Novamente, os homens parecem estar mais interessados em poder e política do que as mulheres.
- Um instinto para tornar a vida previsível por meio de rituais estruturados sejam sagrados ou profanos. As atividades ordenadas em rituais sagrados devem nos ajudar a nos sentirmos mais próximos da Ordem Divina. Rituais profanos, como uma pausa para o café da manhã, simplesmente tornam a vida cotidiana previsível e confortável.
Será que esses três instintos se aplicam a nós, maçons?
Bem, quanto ao instinto de se reunir em grupos, isso é algo que fazemos semanalmente e a maioria de nós gosta de conversar uns com os outros. Como em muitos outros grupos, o nosso é exclusivo e não admite qualquer pessoa – então ser aceito em uma Loja Maçônica nos faz ter um sentimento especial de pertencimento e importância.
O Ir\ Ricardo M. Gonçalves comentava que as fraternidades masculinas existiam em muitas sociedades primitivas, sob a forma de sociedades secretas, como a dos "homens-leopardo" na África e as "mannerbunde" indo-europeias estudadas pelo orientalista sueco Stig Wikander. Passando para os nossos tempos, há os "clubs" ingleses exclusivamente masculinos, os quais ele considerava “parentes próximos” da Maçonaria.
E quanto ao instinto de organizar o grupo numa estrutura de poder? Novamente, esse parece nos representar. Nossa hierarquia coloca o G\A\D\U\ em primeiro lugar, seguido pelos vários líderes terrenos, desde o Grão-Mestre, passando por nossos delegados até os Veneráveis Mestres e os outros oficiais de nossas Lojas.
E quanto ao instinto de ordem e rituais estruturados? Novamente trata-se de algo que se aplica aos maçons: acreditamos que o G\A\D\U\ é o Grande Geômetra e, por meio da ritualística sagrada, aprendemos palavras secretas que são chaves para a compreensão do comando do Ser Supremo.
O Ir\ Ricardo também comentou sobre a importância do Ritual, dizendo que não é uma formalidade vazia, pois ele transmite conteúdos e provoca transformações na consciência dos executantes. Os antropólogos falam em "eficácia simbólica" e, com base em recentes estudos no campo da liturgia budista, há a "eficácia litúrgica". O Ritual Maçônico, quando bem executado, provoca efeitos facilmente verificáveis: depois de um dia de trabalho extenuante e pesadas preocupações, a participação na Loja nos deixa aliviados e "com as baterias recarregadas", ou seja, com nossas energias psíquicas restauradas e fortalecidas.
Agora, a questão mais importante: a Maçonaria pode ser reduzida pela psicologia a nada mais do que uma expressão de instintos antigos? Estamos simplesmente recriando um período da história humana em que os homens lutaram contra outros homens pela liderança de um grupo que deixava mulheres no acampamento para irem caçar e participar de rituais religiosos secretos?
Talvez isso seja verdade para alguns pouquíssimos maçons. Alguns de nós, infelizmente, freqüentam a Loja apenas para escapar de suas esposas e visitar ver os amigos-irmãos. Outros podem, de fato, ser motivados pela ambição, desejando ser um Venerável Mestre. Outros são confortados pela previsibilidade das reuniões e ritualística da mesma forma que somos consolados pela ordem previsível de um serviço religioso. Como em um culto de adoração, pode ser que realmente não entendemos o real significado dos rituais, embora tenhamos a sensação de que algo importante está acontecendo, e isso nos faz sentir relaxados e confortáveis.
Felizmente, a Maçonaria tem, para nós, um propósito mais elevado e nobre. Somos motivados por uma psicologia interna, não pelos motivos comuns dos não iniciados. O que é essa psicologia interior? Ela não pode ser descrita com uma única reunião e, além disso, parte dessa psicologia interna pode estar além das palavras pois ela deve ser experimentada pessoalmente. Darei, entretanto, um exemplo da psicologia interna da Maçonaria no ritual de abertura da Loja.
Os sete oficiais da Loja representam as sete faculdades da mente. Enquanto eles realizam a ritualística de abertura da Loja, devemos estar abrindo nossas mentes e calor para o G\A\D\U\. Os oficiais estão dramatizando esse processo psicológico de abrir nossas mentes e corações. O Venerável Mestre representa o que há de mais elevado em nós - o Espírito, a Centelha Divina ou o que São Paulo chamou de "o Cristo Interior". Ele dirige a abertura da Loja, mas não pode fazer isso sozinho. Os oficiais devem trabalhar juntos e, assim, nossas próprias faculdades psicológicas devem trabalhar juntas para nos abrirmos para o Grande Arquiteto.
A abertura começa com o Venerável Mestre verificando com o Guarda do Templo e com o Cobridor se estamos protegidos de influências externas. Eles representam nossos sentidos externos, nosso elo com o mundo mundano e profano. Assim como eles guardam a entrada do templo, devemos também lacrar nossas mentes às nossas naturezas inferiores, para nos prepararmos para as coisas superiores.
Uma vez que a Loja é “controlada”, qualquer comunicação com o mundo exterior é canalizada através desses Irmãos. Se um alarme for ouvido na porta do mundo exterior (nossa natureza inferior), o Cobridor e o Guarda do Templo são direcionados a atender aquele alarme com as espadas desembainhadas, de modo que a harmonia da Loja (nossa mente) não seja perturbada .
A abertura é concluída quando o Venerável Mestre (símbolo do Espírito Divino) comunica o desejo de abrir a Loja através dos Diáconos. Está, assim, comunicando esse desejo às nossas almas, que, como a lua, não tem luz própria e precisa da Luz do Espírito Divino para se iluminarem. Devemos também conectar nossas almas ao Altíssimo, do contrário elas não brilharão. Os Diáconos comunicam o desejo do Venerável Mestre aos Vigilantes que representam o intelecto iluminado. Assim como Josué orou para que o Sol parasse para que ele pudesse vencer seus inimigos, devemos também orar para que nosso intelecto permaneça iluminado durante a reunião da Loja, para que possamos continuar a dissipar quaisquer resquícios de nossa natureza inferior.
Assim, as atividades dos Vigilantes refletem - ou deveriam refletir - processos dentro das sete faculdades de nossas mentes. Somente quando as faculdades de nossa mente trabalham em harmonia podemos encontrar Deus. Para uma reflexão mais aprofundada sobre a harmonia das sete faculdades mentais, recomendo ler o Apocalipse, capítulo 1, versículos 12 a 20.
Muito mais pode ser dito sobre a psicologia interna da Maçonaria. Não falei, desta vez, sobre o significado das Luzes maiores e menores, nem dos rituais dos três graus. Talvez, em algum outro momento.
Ir\ Paulo C. T. Ribeiro, M\I\
A\R\B\L\S\ Quintino Bocaiuva, 10
Or\ de São Paulo, G\L\E\S\P\

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