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LIDERANÇA MAÇÔNICA E A CONSTRUÇÃO SOCIAL


Artigo Publicado anteriormente na revista "A Verdade" da GLESP

Quando a nação tem líderes inteligentes e sensatos, ela se torna forte e firme - Rei Salomão - Pv 28:2

De tempos em tempos, todos nós repensamos a vida e fazemos resoluções costumeiramente positivas sobre nossas formas de agir. Como obreiros da Arte Real, dizemos que são decisões conseqüentes e, ao mesmo tempo, incentivadoras do perseverante processo de lapidação e construção do Templo Interior; mas cabe aqui um questionamento: você associa sua evolução pessoal com as responsabilidades de um maçom no que concerne ao desenvolvimento da sociedade? Esta é uma questão que, por ser sempre hodierna e justificada pelas urgências da realidade social brasileira, merece atenção especial. A realidade não deve ser percebida apaixonadamente; por outro lado, tal como os budistas, será plena a nossa atuação se existir compaixão em nossos corações. Assim, serão mais interessantes as resoluções que, com essa consciência íntima, se voltem ao aperfeiçoamento do humanismo maçônico e que exaltem os sentimentos de fraternidade e solidariedade, particularmente se for uma atitude incorporada ao conjunto de competências de liderança, afinal, a nossa instituição é também uma progressista “escola de líderes”. Refiro-me a uma liderança que enfatize o valor intrínseco do ser humano, o seu potencial de desenvolvimento, sua singularidade e originalidade bem como o respeito às diferenças entre as pessoas. Os Irmãos que optam por esta vereda são aqueles que não vivem sem avental e que aceitam, galhardamente, a mítica “jornada heróica” na vivência do papel de construtores sociais.

Focando a nossa “escola maçônica de líderes” por um viés de psicologia, nota-se a valorização da abertura à experiência como uma característica da criatividade auto-realizadora, bem como a identificação da criatividade como saúde psicológica e expressão de pessoas normais na busca de auto-realização. Totalmente humanista, trata-se de uma liderança que reputa a interação pessoa-ambiente como fundamental para a criação; quero dizer com isso que não basta apenas o impulso em auto-realizar-se: também as condições presentes na sociedade, as quais devem possibilitar ao indivíduo liberdade de escolha e ação, fazem parte do processo criativo. Entretanto, o ritmo dessa interação deve ser acelerado para não custar caro uma demora maior na correção das injustiças sociais em nossa pátria, um dos pontos de atuação da maçonaria especulativa. A propósito da criatividade, menciono Donald Winnicott que diz que  “é através da apercepção criativa que o indivíduo sente que a vida é digna de ser vivida. Em contraste, existe um relacionamento de submissão à realidade externa, em que o mundo em todos os seus pormenores é reconhecido apenas como algo a que ajustar-se ou exigir adaptação. A submissão traz consigo um sentido de inutilidade e está associada à idéia de que nada importa e que não vale a pena viver a vida” (“O Brincar e a Realidade”, Imago, 1975).

É reconhecido que a estrutura econômica condiciona e determina preponderantemente as relações sociais. Quando essa estrutura sofre mudanças profundas, alteram-se as relações nos diversos ambientes (econômico, produção, etc.), acumulam-se novos conhecimentos, surge uma nova consciência social e a necessidade de transformações na superestrutura da sociedade como um todo. Clarifico que o conhecimento não é um mero reflexo das coisas: são representações mentais que criamos para ordenar nosso entendimento e a capacidade de operar mudanças no mundo real. A nova consciência social tem acelerado a intensidade das conquistas atuais, mas infelizmente essas ainda não ocorrem como desejadas porque as reações do comportamento social, historicamente, imprimem um ritmo mais lento ao seu próprio movimento. Uma especial preocupação do maçom está no fato de que o povo com fome busca, exclusivamente, sobreviver, não havendo, assim, um ambiente propício para o pleno e ideal aperfeiçoamento do humanismo na sociedade. Pelo contrário, produz-se um meio que estimula a selvageria da competição individual num clima favorável à conservação do controle estatal autoritário pelo abuso do assistencialismo enganador e antidesenvolvimentista. Contribuir com a Bolsa de Beneficiência para o Tronco de Solidariedade é um dever e é importante, mas é imprescindível a interrupção daquele circulo vicioso para a concretização das melhorias sociais, pois claro está, para os seguidores da Sublime Arte, que uma pessoa só se consolidará como homem livre, de bons costumes e criativo, e só poderá pensar livremente e agir de forma imprevisível em todo o seu potencial criador, se estiver isento das iminências infligidas exclusivamente pelas necessidades de sobrevivência.

Nós, maçons, devemos estar eticamente integrados para exercermos responsavelmente nossas funções sociais, sabedores que para haver desenvolvimento humano é preciso que isso seja concebido numa base social justa e perfeita. Por que você é maçom? Sua resposta certamente aludirá a viver plena e intensamente uma nobre missão voltada à construção social, tal como aprendemos e se incorporamos, convictamente, a ideologia maçônica, ou seja, se queremos, de fato, trabalhar por um país e um mundo melhores. Trata-se de permitir que a força do arquétipo “O Guerreiro” nos preencha psicologicamente, dirigindo-nos à proteção dos princípios que norteiam os ideais pessoais e, particularmente aqueles de nossa Or.’., que abraçamos, juramos defender e disseminar todos os dias de nossas vidas. Como líderes, é mister que nos esforcemos para entender, racional e emocionalmente, os valores e opiniões das pessoas com quem convivemos visto que, provavelmente, os influenciamos sendo construtores sociais. Não basta ter talentos como inteligência e carisma: o líder maçônico deve ser flexível, sensível, moderno e adaptado às características das pessoas ao seu redor. É um envolvimento ético que não carece de ciência e especialização pois não existe know-how ético. É só tratar da justiça social e do bem comum e, com esta intenção, estimular as pessoas a verem suas próprias incoerências e a perseguirem as próprias contradições - por exemplo, potência e impotência, resignação e revolta, ordem e desordem. É uma medida simples mas com a qual é possível reforçar as bases da democracia tal qual os gregos fizeram. Estaremos desenvolvendo consciências e assim, a percepção individual da realidade social, criando o ambiente favorável para as mudanças nessa mesma sociedade. A medida é simplória e pode ser pequena, mas sem isso, seremos apenas tolos e a tolice produz a inadequação social. Na tolice, na falta de dialogo consigo mesmo e com os iguais, é que o comportamento não-ético, como uma peste social, nasce e se alastra. Quanto mais a sociedade perde em autoconsciência, maior é o grau de banalidade, a qual tem como acompanhantes a rotina, a estupidez, o fanatismo e a obediência cega, fenômenos comportamentais impróprios e nunca almejados pelos maçons. Fanatismo e obediência cega equivalem à estagnação decorrente do apego em algo em que acredita e contraria um provérbio chinês que diz: “Não tema crescer lentamente; tema apenas ficar parado”.

Qualquer pessoa pode crescer e se atualizar, a despeito dos diversos fatores capazes de interromper ou tornar difícil esse crescimento. Exercendo uma liderança condizente com os valores maçônicos teremos meios de impedir que a força do crescimento reprimido volte-se contra o próprio ambiente, e mais do que isso, motivaremos a aceitação da pedra fundamental do humanismo que é a crença na pessoa como um ser de positividades e de construção. Certamente não corrigiremos todos os males sociais, mas com esta atitude, nós maçons, ajudaremos consistentemente na solução de vários problemas psicológicos e sociais.

“Vive-se atualmente uma crise de liderança!...”. Hoje em dia é freqüente ouvirmos afirmações deste tipo nos mais diferentes círculos, inclusive entre irmãos. Mas, o que exatamente isso quer dizer? Que há uma lacuna de direção e que as pessoas não sabem para onde ir? Que há menos líderes do que seria necessário? Ou essa sensação de falta de liderança resulta da alienação, da falta de envolvimento, da ausência de iniciativa, da passividade generalizada, que fazem as pessoas precisar de alguém para guiá-las praticamente “pela mão”? Qualquer que seja a resposta, para a maçonaria é sempre um campo de batalhas e estudos, desde que seus obreiros preparem-se e atuem como verdadeiros combatentes à desigualdade, à falta de liberdade e de fraternidade, e que desenvolvam, em si mesmos, as quatro virtudes essenciais ao líder, das quais dependem todas as outras: prudência, justiça, coragem e temperança.

Ciente de que as grandes mudanças históricas, como a Revolução Francesa, surgiram da simbiose entre lideres e liderados, acredito que os maçons, motivados pelos seus princípios e valores, continuarão a engendrar transformações importantes na sociedade contemporânea. O sonho prevalecente contido nestas minhas poucas reflexões é ver a liderança maçônica fomentando um clima no qual todas as pessoas possam crescer e trabalhar harmoniosamente, e no qual haja mais compreensão e respostas às suas necessidades. Chamemos de motivação maçônica a um estado interior que podemos experimentar quando alinhamos a nossa forma de viver no mundo com nossas inclinações mais profundas, na senda para a qual fomos convidados a percorrer, ou seja, quando professamos a Arte Real e expressamos nossos melhores talentos. Trata-se de uma força interior inerente aos líderes e que provém, em grande parte, de qualidades como integridade e coerência, dedicação e envolvimento, magnanimidade e generosidade, humildade, abertura e criatividade:

  • Integridade significa “ser inteiro e coerente”; significa também honestidade intelectual e moral em tudo o que se faz.
  • Dedicação tem na base uma crença apaixonada por algo. Esse tipo de comprometimento intenso e permanente é a base para grandes trabalhos sociais, artísticos, invenções, descobertas científicas e para a própria vida de muitas pessoas.
  • Magnanimidade significa ser nobre de mente e coração; ter generosidade e ficar acima de revanches e ressentimentos.
  • Abertura significa disposição para tentar coisas novas e ouvir novas idéias, por mais bizarras que pareçam; significa também tolerância à ambigüidade e uma rejeição a quaisquer preconceitos, vieses e estereótipos. Refere-se, também, à aceitação da intuição e dos sentimentos como elementos da inteligência humana e da capacidade perceptiva de cada ser.

Enfim, além do carisma, inteligência e empatia, as qualidades acima mencionadas ou, de forma mais sucinta, virtudes e visão, características de qualquer maçom, por mais adormecido que possa estar. Qualquer membro da Or.’. propenso a exercer liderança social deve praticá-las ao máximo cotidianamente para mantê-las em constante desenvolvimento. Já temos a régua, o compasso e a alavanca, resta-nos adicionar uma atitude correta, a vontade de servir, o compromisso com o desenvolvimento humano para, então, seguirmos inabaláveis em direção à grande obra humana: uma sociedade justa, sustentada por valores corretos e consistentes, permeados de fraternidade e solidariedade. Talvez, uma mera utopia, mas eternamente, uma direção.

Ir\ Paulo C. T. Ribeiro, M\I\
A\R\B\L\S\ Quintino Bocaiuva, 10
Or\ de São Paulo, G\L\E\S\P\



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