Artigo Publicado anteriormente na revista "A Verdade" da GLESP
De tempos em tempos, todos nós repensamos a vida e fazemos resoluções costumeiramente positivas sobre nossas formas de agir. Como obreiros da Arte Real, dizemos que são decisões conseqüentes e, ao mesmo tempo, incentivadoras do perseverante processo de lapidação e construção do Templo Interior; mas cabe aqui um questionamento: você associa sua evolução pessoal com as responsabilidades de um maçom no que concerne ao desenvolvimento da sociedade? Esta é uma questão que, por ser sempre hodierna e justificada pelas urgências da realidade social brasileira, merece atenção especial. A realidade não deve ser percebida apaixonadamente; por outro lado, tal como os budistas, será plena a nossa atuação se existir compaixão em nossos corações. Assim, serão mais interessantes as resoluções que, com essa consciência íntima, se voltem ao aperfeiçoamento do humanismo maçônico e que exaltem os sentimentos de fraternidade e solidariedade, particularmente se for uma atitude incorporada ao conjunto de competências de liderança, afinal, a nossa instituição é também uma progressista “escola de líderes”. Refiro-me a uma liderança que enfatize o valor intrínseco do ser humano, o seu potencial de desenvolvimento, sua singularidade e originalidade bem como o respeito às diferenças entre as pessoas. Os Irmãos que optam por esta vereda são aqueles que não vivem sem avental e que aceitam, galhardamente, a mítica “jornada heróica” na vivência do papel de construtores sociais.
Focando a nossa “escola
maçônica de líderes” por um viés de psicologia, nota-se a valorização da abertura
à experiência como uma característica da criatividade auto-realizadora, bem
como a identificação da criatividade como saúde psicológica e expressão de
pessoas normais na busca de auto-realização. Totalmente humanista, trata-se de
uma liderança que reputa a interação pessoa-ambiente como fundamental para a
criação; quero dizer com isso que
não basta apenas o impulso em auto-realizar-se: também as condições presentes na sociedade, as quais devem
possibilitar ao indivíduo liberdade de escolha e ação, fazem parte do processo
criativo. Entretanto, o ritmo dessa interação deve ser acelerado para não
custar caro uma demora maior na correção das injustiças sociais em nossa pátria,
um dos pontos de atuação da maçonaria especulativa. A propósito da criatividade, menciono
Donald Winnicott que diz que “é através da apercepção criativa que o
indivíduo sente que a vida é digna de ser vivida. Em contraste, existe um relacionamento
de submissão à realidade externa, em que o mundo em todos os seus pormenores é
reconhecido apenas como algo a que ajustar-se ou exigir adaptação. A submissão
traz consigo um sentido de inutilidade e está associada à idéia de que nada
importa e que não vale a pena viver a vida” (“O Brincar e a Realidade”,
Imago, 1975).
É reconhecido
que a estrutura econômica condiciona e determina preponderantemente as relações
sociais. Quando essa estrutura sofre mudanças profundas, alteram-se as relações
nos diversos ambientes (econômico, produção, etc.), acumulam-se novos
conhecimentos, surge uma nova consciência social e a necessidade de
transformações na superestrutura da sociedade como um todo. Clarifico que o
conhecimento não é um mero reflexo das coisas: são representações mentais que criamos para ordenar nosso
entendimento e a capacidade de operar mudanças no mundo real. A nova
consciência social tem acelerado a intensidade das conquistas atuais, mas infelizmente
essas ainda não ocorrem como desejadas porque as reações do comportamento
social, historicamente, imprimem um ritmo mais lento ao seu próprio movimento. Uma
especial preocupação do maçom está no fato de que o povo com fome busca,
exclusivamente, sobreviver, não havendo, assim, um ambiente propício para o pleno
e ideal aperfeiçoamento do humanismo na sociedade. Pelo contrário, produz-se um
meio que estimula a selvageria da competição individual num clima favorável à
conservação do controle estatal autoritário pelo abuso do assistencialismo
enganador e antidesenvolvimentista. Contribuir com a Bolsa de Beneficiência para
o Tronco de Solidariedade é um dever e é importante, mas é imprescindível a
interrupção daquele circulo vicioso para a concretização das melhorias sociais,
pois claro está, para os seguidores da Sublime Arte, que uma pessoa só se
consolidará como homem livre, de bons costumes e criativo, e só poderá pensar
livremente e agir de forma imprevisível em todo o seu potencial criador, se
estiver isento das iminências infligidas exclusivamente pelas necessidades de
sobrevivência.
Nós, maçons,
devemos estar eticamente integrados para exercermos responsavelmente nossas
funções sociais, sabedores que para haver desenvolvimento humano é preciso que
isso seja concebido numa base social justa e perfeita. Por que você é maçom?
Sua resposta certamente aludirá a viver plena e intensamente uma nobre missão voltada
à construção social, tal como aprendemos e se incorporamos, convictamente, a
ideologia maçônica, ou seja, se queremos, de fato, trabalhar por um país e um
mundo melhores. Trata-se de permitir que a força do arquétipo “O Guerreiro” nos
preencha psicologicamente, dirigindo-nos à proteção dos princípios que norteiam
os ideais pessoais e, particularmente aqueles de nossa Or.’., que abraçamos,
juramos defender e disseminar todos os dias de nossas vidas. Como líderes, é
mister que nos esforcemos para entender, racional e emocionalmente, os valores
e opiniões das pessoas com quem convivemos visto que, provavelmente, os influenciamos
sendo construtores sociais. Não basta ter talentos como inteligência e carisma:
o líder maçônico deve ser flexível, sensível, moderno e adaptado às
características das pessoas ao seu redor. É um envolvimento ético que não
carece de ciência e especialização pois não existe know-how ético. É só tratar da justiça social e do bem comum e, com
esta intenção, estimular as pessoas a verem suas próprias incoerências e a
perseguirem as próprias contradições - por exemplo, potência e impotência, resignação
e revolta, ordem e desordem. É uma medida simples mas com a qual é possível
reforçar as bases da democracia tal qual os gregos fizeram. Estaremos
desenvolvendo consciências e assim, a percepção individual da realidade social,
criando o ambiente favorável para as mudanças nessa mesma sociedade. A medida é
simplória e pode ser pequena, mas sem isso, seremos apenas tolos e a tolice
produz a inadequação social. Na tolice, na falta de dialogo consigo mesmo e com
os iguais, é que o comportamento não-ético, como uma peste social, nasce e se
alastra. Quanto mais a sociedade perde em autoconsciência, maior é o grau de
banalidade, a qual tem como acompanhantes a rotina, a estupidez, o fanatismo e
a obediência cega, fenômenos comportamentais impróprios e nunca almejados pelos
maçons. Fanatismo e obediência cega
equivalem à estagnação decorrente do apego em algo em que acredita e contraria
um provérbio chinês que diz: “Não tema
crescer lentamente; tema apenas ficar parado”.
Qualquer pessoa pode crescer e se
atualizar, a despeito dos diversos fatores capazes de interromper ou tornar
difícil esse crescimento. Exercendo uma liderança condizente com os valores
maçônicos teremos meios de impedir que a força do crescimento reprimido
volte-se contra o próprio ambiente, e mais do que isso, motivaremos a aceitação
da pedra fundamental do humanismo que é a crença na pessoa como um ser de
positividades e de construção. Certamente não corrigiremos todos os males
sociais, mas com esta atitude, nós maçons, ajudaremos consistentemente na
solução de vários problemas psicológicos e sociais.
“Vive-se atualmente uma crise de liderança!...”. Hoje em dia é freqüente ouvirmos afirmações deste tipo nos mais diferentes círculos, inclusive entre irmãos. Mas, o que exatamente isso quer dizer? Que há uma lacuna de direção e que as pessoas não sabem para onde ir? Que há menos líderes do que seria necessário? Ou essa sensação de falta de liderança resulta da alienação, da falta de envolvimento, da ausência de iniciativa, da passividade generalizada, que fazem as pessoas precisar de alguém para guiá-las praticamente “pela mão”? Qualquer que seja a resposta, para a maçonaria é sempre um campo de batalhas e estudos, desde que seus obreiros preparem-se e atuem como verdadeiros combatentes à desigualdade, à falta de liberdade e de fraternidade, e que desenvolvam, em si mesmos, as quatro virtudes essenciais ao líder, das quais dependem todas as outras: prudência, justiça, coragem e temperança.
Ciente
de que as grandes mudanças históricas, como a Revolução Francesa, surgiram da
simbiose entre lideres e liderados, acredito que os maçons, motivados pelos
seus princípios e valores, continuarão a engendrar transformações importantes
na sociedade contemporânea. O sonho prevalecente contido nestas minhas poucas
reflexões é ver a liderança maçônica fomentando um clima no qual todas as
pessoas possam crescer e trabalhar harmoniosamente, e no qual haja mais
compreensão e respostas às suas necessidades. Chamemos de motivação maçônica a
um estado interior que podemos experimentar quando alinhamos a nossa forma de
viver no mundo com nossas inclinações mais profundas, na senda para a qual
fomos convidados a percorrer, ou seja, quando professamos a Arte Real e
expressamos nossos melhores talentos. Trata-se de uma força interior inerente aos
líderes e que provém, em grande parte, de qualidades como integridade e
coerência, dedicação e envolvimento, magnanimidade e generosidade, humildade,
abertura e criatividade:
- Integridade significa “ser inteiro e coerente”; significa também honestidade intelectual e moral em tudo o que se faz.
- Dedicação tem na base uma crença apaixonada por algo. Esse tipo de comprometimento intenso e permanente é a base para grandes trabalhos sociais, artísticos, invenções, descobertas científicas e para a própria vida de muitas pessoas.
- Magnanimidade significa ser nobre de mente e coração; ter generosidade e ficar acima de revanches e ressentimentos.
- Abertura significa disposição para tentar coisas novas e ouvir novas idéias, por mais bizarras que pareçam; significa também tolerância à ambigüidade e uma rejeição a quaisquer preconceitos, vieses e estereótipos. Refere-se, também, à aceitação da intuição e dos sentimentos como elementos da inteligência humana e da capacidade perceptiva de cada ser.
Enfim, além do carisma, inteligência e empatia, as qualidades acima mencionadas ou, de forma mais sucinta, virtudes e visão, características de qualquer maçom, por mais adormecido que possa estar. Qualquer membro da Or.’. propenso a exercer liderança social deve praticá-las ao máximo cotidianamente para mantê-las em constante desenvolvimento. Já temos a régua, o compasso e a alavanca, resta-nos adicionar uma atitude correta, a vontade de servir, o compromisso com o desenvolvimento humano para, então, seguirmos inabaláveis em direção à grande obra humana: uma sociedade justa, sustentada por valores corretos e consistentes, permeados de fraternidade e solidariedade. Talvez, uma mera utopia, mas eternamente, uma direção.

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